Por um breve momento ela caminhou um pouco mais adiante, respirou fundo, observou o céu e se perguntou se preferia não estar bem com a infelicidade dele ou incomodada com sua alegria.
Ambas as coisas pareciam pesar de formas diferentes, tendo suas próprias e peculiares vantagens e desvantagens. Porque o ver excessivamente feliz a incomodava demasiadamente em uma parte tão profunda de seu ser, que ela por mero capricho de querer parecer ser humano e menos monstro do que de costume aos olhos de quem a visse, e dele próprio, preferia esconder seu desejo intrínseco e obscuro de que ele jamais fosse feliz novamente. E se possível fosse, decerto lhe rogaria uma praga, destas que duram eternidades pelo simples fato de terem sido amadurecidas em um coração tão amargarudo quanto só uma pessoa megera o bastante poderia o continuar carregando no peito. Sua praga seria lançada ao vento com um pedido de que os olhos dele jamais brilhassem, por coisa alguma no mundo, por mais encantadora que pudesse ser a qualquer mortal, nele surtiria efeito algum, e seria praga muito bem justa já que os olhos dela também não podiam mais brilhar.
Mas por outro lado, coitada, ela não passava de um coração mole e trouxo, tão tolerante quanto só quem ama o inamável o aprende a ser por obstinação, na maior parte das vezes se sentia infeliz só por pensá-lo infeliz, não importava o motivo da infelicidade, sua vontade era doar sua alma e seu sangue para que os olhos dele pudessem brilhar outra vez.
(Fernanda Borba)












