Quis beijá-lo. Mas ele me escapava entre os lábios. E se tentasse tocá-lo, talvez me faltassem os braços. Quando a loucura me venceu, explorei-o palmo a palmo, receando encontrar por detrás daquela armadura com todas as suas partes soldadas, apenas um esqueleto calcificado. Talvez aquela sucata metálica albergasse algo mais do que um fantasma silencioso e absorto que minhas reflexões haviam anunciado. Embruxado, o medo acompanhava-nos. Porque nosso fraco e o nosso forte, era se orientar pelo vôo dos pássaros, para não ter que fazer o caminho de volta, como se temêssemos que aquela rota nos levasse invariavelmente ao passado. Era isso o que amávamos. Os obstáculos. Não fosse o luto carregado, num movimento de repetição que nunca é mesmo, eu poderia dizer que era o ódio o que nos havia ressuscitado. Como sempre, estávamos enganados. Não fosse a paixão e o desejo que nos tivesse alimentado, já teríamos evaporado. Como dois prisioneiros de nós mesmos, em nosso orgulho, definhávamos. Mais uma noite em claro, deixando de vivê-lo para apenas imaginá-lo. Como se quisesse memorizá-lo entre os dedos, escrevo. Fosse ele um papel e eu pudesse rasgá-lo em pedaços. Fosse esta porta trancada e não simplesmente encostada, à espera de que ele possa empurrá-la. Fosse este um quarto sem janelas por onde os ventos não me sussurrassem este aviso sem palavras. Não fosse esta sombra toda noite andando pela casa e tropeçando em minha cara. Eu já teria encerrado este monólogo surdo. Esperava em silêncio. Enquanto isso, os fios invisíveis do destino teciam seus bordados naquele incontornável pano negro de fundo. Aonde o fim não era um ponto final absoluto. Era, antes, o começo de tudo.

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